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O início da temporada 2022 da Fórmula 1 está cada vez mais próximo e reserva ainda mais disputas na pista, após a adoção de um novo chassi com atualizações aerodinâmicas. Mas você sabia que muitas tecnologias que passaram pelos carros de Fórmula 1 foram parar nos nossos carros de rua?

Veja como os carros de Fórmula 1 ditam tendências para os carros de rua!

Considerada a categoria de maior prestígio no automobilismo mundial, a Fórmula 1 carrega também um status de ‘laboratório de inovações’ para o mercado automotivo. A presença de diversas fabricantes de veículos com equipes próprias, demonstra o interesse em usar a categoria como plataforma de desenvolvimento dessas tecnologias.

Para que você possa entender ainda mais sobre esse assunto, fizemos uma entrevista exclusiva com Rafael Lopes, repórter e comentarista do Grupo Globo há 16 anos, especialista em Fórmula 1 e que tem um blog no site Globo Esporte, chamado Voando Baixo.

Quais são as principais inovações que saíram dos carros de Fórmula 1 e foram para os carros de rua?

É possível destacar uma série de inovações que foram ‘testadas’ nos carros de Fórmula 1 e depois foram adaptadas e aplicadas no nosso dia a dia. Mas antes de listar isso, é importante ressaltar que a categoria ajudou também na evolução da segurança dos veículos.

“É um grande legado não só da Fórmula 1, como das corridas de carro em geral, para a indústria automotiva”, avaliou Lopes. “Muita coisa que você usa hoje na segurança dos carros, como os materiais de absorção de impacto, por exemplo, foram desenvolvidos nas pistas de corrida”.  

Imagem representativa da 1ª Ferrari utilizada em corridas de Fórmula 1.
Esse foi o carro utilizado pela Ferrari em sua estreia na Fórmula 1, em 1950.
Imagem retirada de banco de dados público digital

Confira agora uma lista com algumas das principais inovações que foram testadas primeiro em carros de Fórmula 1:

Câmbio semiautomático

Criado pela Ferrari, em 1989, e aperfeiçoado pela Williams, a partir de 1991, o câmbio semiautomático (acionado por ‘borboletas’ atrás do volante, conhecidos também como paddle shifts) é uma das inovações mais importantes que saíram da bolha da Fórmula 1 e invadiram os carros de rua.

Foto da Ferrari utilizada durante a temporada 1989 da Fórmula 1.
Ferrari 1989, a primeira com câmbio semiautomático.
Imagem retirada de banco de dados público digital

Ele foi criado para economizar espaço no cockpit, eliminando assim a avalancha manual de câmbio, o que geraria ganho aerodinâmico com um carro mais estreito.

De quebra, o piloto ainda poderia passar as marchas de forma mais rápida, sem tirar a mão do volante, algo muito importante para uma condução mais segura.

Suspensão ativa

Em 1983, a Lotus equipou seu carro com um sistema de suspensão ativa, criado pelo aerodinamicista Peter Wright, que já estudava o conceito desde 1977.

Essa inovação era computadorizada e controlava o trabalho dos braços da suspensão que seguravam as rodas. O objetivo era manter a altura do carro em relação ao solo por toda a pista, potencializando as soluções aerodinâmicas e dando maior estabilidade.

A invenção ficou famosa no carro da Williams, campeão de pilotos e equipes em 1992 e 1993, e foi implantada nos carros de rua, proporcionando uma condução mais estável e confortável.

Williams FW14B, pilotada pelo campeão da temporada de 1992, Nigel Mansell.
Imagem retirada de banco de dados público digital

Controle de tração

Causador de longas discussões entre os pilotos e fãs da categoria, o controle de tração ficou famoso na Williams FW14B, que levou Nigel Mansell ao título de 1992.

Só para se ter uma ideia, o modelo altamente tecnológico era chamado de “o carro de outro mundo” pelo tricampeão Ayrton Senna, na época piloto da McLaren.

Adaptado à ‘vida real’, o controle de tração é um item muito importante na segurança do motorista e dos passageiros. Trata-se de um sistema capaz de corrigir erros de pilotagem, prevenindo contra acidentes de trânsito.

Confira: Dicas de manutenção para suspensão e amortecedores

Os atuais carros de Fórmula 1 são inovadores?

Considerada um laboratório para a indústria automotiva, a Fórmula 1 passou muitos anos com motores V10 e V8 mesmo com um mercado já carente por carros mais econômicos e menos poluentes.

Até que em 2014 os carros de Fórmula 1 utilizaram a tecnologia híbrida, aliando um motor 1.6 Turbo V6, a sistemas de recuperação de energia, fazendo o carro gerar às vezes mais de 1000 cv de potência.

No entanto, apesar de tentar inovar com o sistema, a Fórmula 1 acabou errando diante o setor automotivo, como explicou o Rafael Lopes.

Imagem representativa do motor utilizado pelos carros de Fórmula 1 da Mercedes, na temporada 2014.
Motor utilizado pela Mercedes na temporada 2014 da Fórmula 1.
Imagem retirada de banco de dados público digital

“A categoria tentou ser vanguarda na tecnologia e acabou errando um pouco ao tornar o motor complexo e caro demais para um carro de rua. Tanto que para 2026, quando será implementado um novo regulamento, a Fórmula 1 utilizará motores mais simples e baratos, mas mantendo o sistema híbrido”, disse o repórter.

Saiba mais: Como funciona a potência de um motor de carro de rua?

A simplificação do motor pode ainda gerar a possibilidade de novas empresas entrarem na categoria. No final de 2021, Audi e Porsche, duas marcas do Grupo Volkswagen, participaram de conversas sobre o regulamento da Fórmula 1 para 2026.

Como a Fórmula 1 pode ser relevante para a indústria automotiva sustentável?

Um dos pilotos mais críticos em relação ao atual posicionamento da Fórmula 1, diante da falta de avanço tecnológico que possa ser reaproveitado nos carros de rua, é o alemão Sebastian Vettel, tetracampeão na categoria (2010, 2011, 2012 e 2013).

Foto do piloto alemão Sebastian Vettel com um troféu na mão.
Vettel foi tetracampeão de Fórmula 1 pela equipe da Red Bull.
Imagem retirada de banco de dados público digital

Durante uma entrevista cedida em 2021, o piloto disse que se a Fórmula 1 não se movimentar para voltar a inovar tecnologicamente, no sentido de ser cada vez mais sustentável, ela vai “deixar de ser relevante e pode até mesmo acabar”.

De acordo com Lopes, a Fórmula 1 já viveu vários ciclos como esse e conseguiu se reestruturar.

Além disso, o regulamento para 2026 deverá contar com o uso de um combustível 100% sustentável em seu motor híbrido, protegendo o espetáculo, mas se mantendo firme no compromisso de ser inovadora e ecológica.

“É importante ressaltar: a Fórmula 1 não vai virar elétrica. Ela vai encontrar o caminho dela nessa questão do desenvolvimento de novas tecnologias para continuar sendo relevante. A grande chave será descobrir qual tipo de combustível vai ser dominante ali”, ressaltou.

“A Fórmula 1 tem que continuar sendo laboratório para essas inovações, pois não faz sentido empresas como Mercedes, Honda, Renault, a própria Ferrari, que faz parte do Grupo Stellantis, investirem em uma categoria como essa, sem que exista um retorno técnico para os seus carros de rua. Estar na Fórmula 1 não é só marketing, você precisa estabelecer tecnologia”.

Lopes disse ainda que os carros de rua híbridos “não estão fadados ao fracasso” e que poderão ser uma boa alternativa para o futuro. “Você ainda pode ter carros a combustão, com recuperação de energia. Assim é possível economizar e não emitir poluição, caso o motor utilize combustíveis sintéticos ou renováveis”, explicou.  

Imagem representativa do carro Toyota Corolla Cross Hybrid.
O Toyota Corolla Cross Hybrid é um exemplo de carro híbrido no mercado automotivo.
Imagem retirada de banco de dados público digital

Confira: os 7 carros híbridos mais vendidos em janeiro de 2022!

Quais fabricantes de veículos de rua estão na Fórmula 1?

A Fórmula 1 foi inaugurada em 1950 e desde então diversas equipes ‘garagistas’ e fabricantes de veículos entraram e saíram da categoria, principalmente após alterações de regulamento.

Neste momento, a Fórmula 1 vive um cenário em que muitas empresas estão entrando no campeonato e assumindo equipes sem tradição no mercado automobilístico. Lopes esclareceu um pouco dessa movimentação.

“O último ‘boom’ das montadoras havia sido no fim da década de 2000, com a crise econômica mundial. Ali saíram Toyota, BMW e Honda, por exemplo. É um ciclo. Depende muito do momento do mundo, de quem manda na montadora e do foco da categoria”.

Com motores menos complexos, mas relevantes para o desenvolvimento de tecnologia, a tendência é que a Fórmula 1 tenha mais empresas interessadas em ingressar no campeonato.

Mas você sabe quais equipes da categoria são de empresas que fabricam carros de rua? Saiba agora!

Não são equipes de fabricantes de carros:

  • AlphaTauri – 2020-presente
  • Haas – 2016-presente
  • Red Bull Racing – 2005-presente
  • Williams – 1978-presente

O primeiro grande prêmio da temporada 2022 da Fórmula 1 acontece dia 20 de março, no circuito de Sahkir, no Bahrein.